Ceará coloca a mineração no centro do debate industrial na 1ª Feira da Indústria FIEC

Foto: George Lucas

Por Flávia Santanna, para marbows

A indústria costuma ser percebida apenas quando ela falha. Quando falta energia, quando o cimento encarece, quando uma obra para. Fora desses momentos, ela permanece invisível, mas basta entrar na Feira da Indústria da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), realizada no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, para perceber que por trás de cada objeto cotidiano existe uma cadeia produtiva inteira funcionando.

Entre robôs industriais, hidrogênio verde, inteligência artificial e novos modelos produtivos, um setor tradicional aparece como base silenciosa dessa engrenagem: a mineração e o setor de rochas ornamentais.

Granito, mármore e quartzito talvez não estejam nas manchetes da nova economia digital. Mas continuam sendo o material que sustenta as cidades, os aeroportos, os portos e os edifícios que simbolizam o avanço da indústria. E é justamente essa conexão entre mineração, infraestrutura e desenvolvimento que aparece com força nesta primeira edição da feira.

O evento reúne 39 sindicatos industriais, ocupa todos os pavilhões do Centro de Eventos e ultrapassou os 110 mil visitantes, consolidando-se como um dos maiores encontros industriais já realizados no Nordeste.

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Carlos Rubens (presidente do Simagran-CE) e Igor Vale (Headpar), durante a 1ª Feira da Indústria FIEC, em Fortaleza. O estande do sindicato contou com apoio institucional da Centrorochas, reforçando a presença do setor de rochas ornamentais na agenda industrial do Ceará. Crédito: Simagran-CE / Divulgação

A mineração invisível que sustenta a indústria

Para Carlos Rubens, presidente do Simagran-CE (Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais do Ceará), um dos objetivos centrais da feira é justamente tornar visível algo que normalmente passa despercebido pela sociedade. A mineração, segundo ele, está presente em praticamente tudo o que compõe a vida moderna.

“A mineração está em tudo, mas as pessoas não sabem. Água é mineração, pasta de dente é mineração, smartphone é mineração, vidro é mineração, as edificações são mineração. A mineração é a base da civilização.”

- Carlos Rubens, presidente do SIMAGRAN-CE

Essa constatação ajuda a explicar por que o setor de rochas ornamentais ganha cada vez mais espaço nas discussões industriais. Se a tecnologia representa o futuro da indústria, a mineração continua sendo sua fundação.

O crescimento silencioso das rochas cearenses

O Ceará vive um momento de transformação no setor de rochas ornamentais. Historicamente conhecido por sua indústria têxtil, calçadista e alimentícia, o estado começa a consolidar também uma posição relevante no mapa brasileiro da mineração de granitos e quartzitos de alto valor comercial.

Nos últimos anos, o setor registrou uma expansão acelerada. Dados da indústria indicam que as exportações de rochas ornamentais do Ceará cresceram mais de 140% em 2025, ultrapassando US$ 110 milhões no ano, com forte presença em mercados exigentes como Estados Unidos e Europa.

Grande parte dessa produção nasce longe da capital, em municípios do interior onde a mineração se tornou um vetor importante de desenvolvimento regional. Segundo estimativas do Simagran-CE, cerca de 20 mil empregos diretos estão ligados à cadeia produtiva das rochas ornamentais no estado. São trabalhadores envolvidos na extração, no transporte, no beneficiamento e na exportação de materiais que, muitas vezes, acabam instalados em projetos arquitetônicos de luxo em diferentes partes do mundo.

A feira que aproxima indústria e sociedade

A primeira edição da Feira da Indústria FIEC também nasce com uma proposta pedagógica. O objetivo não é apenas apresentar máquinas ou produtos industriais, mas aproximar a população do universo produtivo. A presença de estudantes é um exemplo disso.

“Buscou-se mostrar o lado inovador da indústria. Hoje ela tem muito a ver com digitalização, energias alternativas, data centers, semicondutores. E a feira também atrai o ambiente estudantil. Só hoje são cerca de 16 mil alunos visitando o evento.”

- Carlos Rubens, presidente do SIMAGRAN-CE

Ao longo da programação, milhares de estudantes de escolas públicas e universidades visitam os estandes e participam de atividades imersivas sobre indústria, tecnologia e inovação. A estratégia é clara: aproximar as novas gerações de setores produtivos que ainda sofrem com escassez de mão de obra qualificada.

Um novo formato de feira industrial

Outro aspecto que chama atenção no evento é o formato expositivo. Diferente das feiras industriais tradicionais, organizadas em corredores lineares, a Feira da Indústria FIEC aposta em um layout aberto e integrado. Segundo Carlos Rubens, essa mudança cria um ambiente mais dinâmico e interativo.

“É uma feira extremamente inovadora. Não tem aquelas ruas tradicionais de feira. Os espaços são integrados, como hexágonos, e as pessoas estão sempre em contato. É um evento único, muito bonito e completamente diferente.”

- Carlos Rubens, presidente do SIMAGRAN-CE

A estrutura reúne diferentes cadeias produtivas em seis grandes ilhas temáticas, entre elas a Indústria Construtiva, onde estão concentrados os segmentos ligados à mineração, materiais e infraestrutura. É nesse espaço que o setor de rochas ornamentais aparece integrado à cadeia da construção civil, engenharia e obras de grande porte.

Transição energética e novas oportunidades

Entre os anúncios feitos durante a feira está o projeto Hub NetZero Égalité, ligado à produção de hidrogênio verde no Complexo do Pecém. O projeto prevê investimentos que podem chegar a R$ 45 bilhões até 2050, consolidando o Ceará como um dos polos brasileiros da nova economia energética.

Para setores como mineração e rochas ornamentais, essa transformação também representa oportunidades. Mercados internacionais, especialmente na Europa, começam a exigir cadeias produtivas com menor pegada de carbono, incluindo mineração, processamento e transporte. Empresas que conseguirem adaptar seus processos a esse novo cenário tendem a ganhar competitividade no comércio global de pedras naturais.

O desafio de reposicionar o setor de rochas

Apesar do crescimento das exportações, o setor de rochas ornamentais ainda enfrenta desafios importantes. Logística, custos energéticos, regulamentação ambiental e posicionamento de mercado continuam sendo temas recorrentes entre empresários e entidades setoriais. Para Carlos Rubens, um dos debates mais urgentes envolve a relação do setor com o mercado consumidor.

Essa reflexão acontece em um momento em que arquitetura, design e sustentabilidade passam a influenciar cada vez mais o mercado internacional de pedras naturais.

Pedra, indústria e futuro

A primeira Feira da Indústria FIEC mostra um Ceará que busca se posicionar de forma mais assertiva no cenário industrial brasileiro. Entre startups industriais, robótica e transição energética, o setor de rochas ornamentais surge como um elo importante entre tradição e futuro. Porque, no fim das contas, nenhuma revolução tecnológica acontece sem infraestrutura, e nenhuma infraestrutura existe sem mineração.

Antes de existir tecnologia, existe a matéria-prima. E antes da matéria-prima se transformar em cidade, estrada ou aeroporto, existe algo ainda mais essencial. Existe a pedra.

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