Por Flávia Santana, com informações da Centrorochas
Em meio ao avanço das discussões sobre minerais estratégicos e segurança das cadeias globais, novas propostas tarifárias americanas ampliam a preocupação das empresas brasileiras e reforçam a importância da atuação institucional do setor
O setor brasileiro de rochas naturais volta a acompanhar com atenção os movimentos da política comercial dos Estados Unidos. Desta vez, o alerta vem de duas novas propostas anunciadas pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que podem ampliar significativamente as barreiras para produtos brasileiros destinados ao principal mercado consumidor das rochas nacionais.
Embora ainda não estejam em vigor, as medidas abrem um novo capítulo em uma discussão que vem ganhando força desde 2025, quando o governo americano iniciou uma série de revisões sobre sua política comercial e passou a intensificar ações voltadas à proteção de cadeias produtivas consideradas estratégicas para sua economia.
Para o setor de rochas naturais, o momento exige cautela. Os Estados Unidos respondem pela maior parcela das exportações brasileiras e concentram uma demanda fundamental para a indústria nacional. Qualquer alteração nas condições de acesso a esse mercado possui potencial para impactar investimentos, competitividade e geração de empregos em toda a cadeia.
Um cenário mais complexo para quem exporta
As propostas anunciadas pelo USTR partem de investigações distintas. A primeira está relacionada a práticas consideradas restritivas ao comércio americano por parte do Brasil e prevê uma sobretaxa adicional de 25% para determinados produtos brasileiros.
A segunda possui abrangência internacional e envolve cerca de 60 economias analisadas sob a ótica das políticas de combate ao comércio de produtos associados ao trabalho forçado. Neste caso, a tarifa proposta para o Brasil pode alcançar até 12,5%. Separadamente, as medidas já despertam preocupação. Mas é a possibilidade de aplicação cumulativa que aumenta a tensão entre os exportadores.
Caso avancem nos termos atualmente discutidos, algumas categorias de produtos brasileiros poderão enfrentar uma carga tarifária significativamente superior à observada hoje, criando um ambiente de maior incerteza para empresas que dependem do mercado norte-americano.
Quartzitos aparecem entre exceções, mas setor segue em alerta
Entre os pontos observados com atenção pelo mercado está a lista preliminar de exceções divulgada na proposta relacionada especificamente ao Brasil.
Nela aparece o código HTSUS 6802.99.00, classificação que engloba, entre outros materiais, os quartzitos brasileiros, uma das categorias que mais cresceram nos últimos anos e que ajudaram a consolidar a posição do Brasil como referência global no fornecimento de pedras naturais de alto valor agregado.
A presença do código entre as exceções foi recebida como um sinal positivo, mas não elimina as preocupações do setor. Isso porque a segunda investigação, relacionada às políticas de combate ao trabalho forçado, não contempla, até o momento, exceções conhecidas para as rochas naturais brasileiras. Além disso, categorias relevantes da pauta exportadora nacional, como granitos, mármores e ardósias, podem ser diretamente afetadas caso as medidas avancem.
A disputa comercial encontra o debate sobre minerais estratégicos
O anúncio das novas propostas ocorre em um momento particularmente sensível para o setor. Nas últimas semanas, representantes brasileiros participaram de agendas em Brasília voltadas à ampliação do debate sobre minerais estratégicos e cadeias produtivas essenciais, tema que ganhou protagonismo nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
A presença da Centrorochas em encontros promovidos por entidades como a Amcham, o Citi e a Câmara de Comércio dos Estados Unidos reforçou uma mensagem importante: a necessidade de ampliar a compreensão sobre o papel das rochas naturais dentro das discussões que envolvem segurança econômica, infraestrutura e abastecimento industrial.
Embora tradicionalmente associadas à construção civil e à arquitetura, as rochas naturais brasileiras fazem parte de uma cadeia global cada vez mais integrada, que envolve logística, transformação industrial, tecnologia e geração de valor em diferentes etapas da economia.
Nesse contexto, as tarifas deixam de ser apenas uma questão comercial e passam a integrar uma discussão mais ampla sobre competitividade internacional, posicionamento estratégico e relações bilaterais.
Diplomacia empresarial ganha protagonismo
Diante desse cenário, a atuação institucional tornou-se uma das principais frentes de trabalho do setor. Desde os primeiros anúncios tarifários realizados pelos Estados Unidos em 2025, a Centrorochas vem intensificando sua presença em Washington e ampliando o diálogo com representantes políticos, associações empresariais, especialistas em comércio internacional e organizações ligadas à cadeia da construção civil americana.
O objetivo é reforçar o entendimento de que as rochas brasileiras não apenas abastecem o mercado americano, mas também contribuem para a atividade econômica local, gerando empregos e movimentando segmentos industriais que dependem desses materiais para agregar valor.

Divulgação: Centrorochas
Mais do que defender exportações, a estratégia busca consolidar canais permanentes de interlocução entre os dois países e garantir que o setor participe das discussões que definirão o futuro das cadeias produtivas globais.
O que esperar agora
Apesar da preocupação crescente, as medidas ainda não foram implementadas. Os processos seguem as etapas previstas pela legislação americana, incluindo consultas públicas, manifestações de empresas, audiências oficiais e análise final do governo dos Estados Unidos.
As próximas movimentações deverão ocorrer ao longo de julho, quando novas audiências promovidas pelo USTR podem oferecer sinais mais claros sobre o direcionamento das propostas. Até lá, o setor acompanha os desdobramentos de perto. Em um mercado que tem os Estados Unidos como principal destino de suas exportações, o desafio não está apenas em responder às possíveis tarifas, mas em fortalecer a capacidade de diálogo e posicionamento institucional em um ambiente global cada vez mais influenciado por questões geopolíticas, estratégicas e regulatórias.
Para a indústria brasileira de rochas naturais, o momento reforça uma percepção que vem se consolidando nos últimos anos: competitividade internacional já não depende apenas da qualidade do produto. Ela passa, cada vez mais, pela capacidade de ocupar espaços de influência, construir relações de longo prazo e participar ativamente das decisões que moldam o comércio global.






