Silicose nos EUA: o que foi discutido na reunião estratégica entre NSI e Centrorochas na Marmomac Brazil 2026

Por Flávia Santanna, para marbows

Há momentos em uma feira que não aparecem nas fotos, não estão nos estandes mais visitados, não são capturados pelos flashes ou pelas métricas de fluxo de público. São encontros estratégicos, quase silenciosos, mas que definem o rumo de um setor inteiro. Foi exatamente isso que aconteceu durante a Marmomac Brazil 2026, na reunião promovida pela Centrorochas em parceria com a Natural Stone Institute, dedicada à defesa e à promoção da pedra natural nos Estados Unidos.

Antes mesmo da abertura oficial do segundo dia de evento, mais de 80 empresários e representantes de empresas exportadoras brasileiras se reuniram para discutir um tema que não pode mais ser tratado como periférico: o avanço das ações judiciais relacionadas à silicose no mercado norte-americano e os impactos diretos e indiretos sobre o canal de distribuição, incluindo empresas que trabalham exclusivamente com pedra natural. O contexto é claro e exige maturidade estratégica. Nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia, cresce o número de processos envolvendo superfícies engenheiradas à base de quartzo.

Foto: Marmomac Brazil 2026

Foto: Marmomac Brazil

Esse movimento jurídico não é apenas uma questão de tribunais. Ele afeta seguros, classificação regulatória, percepção de risco por parte de arquitetos e especificadores, posicionamento de seguradoras, políticas internas de distribuidores e, acima de tudo, confiança de mercado. E confiança, no setor de rochas naturais, é ativo intangível de alto valor.

A discussão conduzida por Jim foi objetiva ao diferenciar foco em conflito e narrativa pública. A maior parte dos processos está ligada a práticas inadequadas de fabricação, especialmente corte a seco, e tem como epicentro o quartzo. No entanto, quando o debate é simplificado sob o conceito genérico de “sílica”, abre-se espaço para generalizações perigosas. Materiais com composições distintas passam a ser tratados sob o mesmo rótulo, o que pode gerar distorções regulatórias e comerciais. É nesse ponto que a ciência deixa de ser acessório e passa a ser ferramenta estratégica.

A parceria entre a Natural Stone Institute e a Universidade de Yale foi um dos eixos centrais apresentados na reunião. Estudos já concluídos e novas pesquisas em andamento buscam demonstrar, com base técnica e metodológica robusta, que a pedra natural pode ser fabricada de forma segura quando controles de engenharia adequados são aplicados. O debate é técnico e, somente com literatura revisada, dados consistentes e diferenciação clara entre materiais, será possível sustentar uma defesa sólida no ambiente jurídico e regulatório.

Foi reforçado que, sem diferenciação científica consistente, há risco de que materiais com alto teor de sílica sejam agrupados em categorias regulatórias amplas. Essa simplificação pode afetar o quartzito natural, por exemplo, criando ruídos de percepção que não dialogam com a realidade técnica do material. O desafio não é apenas jurídico, é também comunicacional e institucional.

O CEO da Natural Stone Institute, Jim Hieb, abriu o painel trazendo um dado que, por si só, altera qualquer equação de risco: já são mais de 400 ações judiciais impactando fabricantes e distribuidores. Em alguns casos, empresas cuja operação é majoritariamente composta por pedra natural também estão sendo incluídas como rés, mesmo sem atuarem como fabricantes ou responsáveis por processos de beneficiamento.

A reunião também trouxe à tona uma preocupação legítima do setor: a percepção. Mesmo quando a litigância está concentrada em superfícies engenheiradas, o ruído no mercado pode impactar decisões de especificação. Arquitetos e designers, pressionados por narrativas simplificadas, podem optar por evitar qualquer material associado à discussão. Por isso, a estratégia apresentada vai além da defesa técnica, ela envolve educação, posicionamento e presença institucional.

Nesse contexto, foi anunciada uma nova iniciativa colaborativa entre NSI e Centrorochas com foco direto em arquitetos e designers. O programa de educação continuada da Natural Stone Institute passará a integrar um módulo dedicado ao Brasil, ampliando o conhecimento sobre a geologia, as características técnicas e as boas práticas relacionadas à pedra natural brasileira. Não se trata apenas de promoção comercial, mas de formação de opinião qualificada.

A experiência relatada por Fabio Cruz reforça essa estratégia. Em aulas anteriores, uma pergunta recorrente surgia após a apresentação de materiais brasileiros: onde posso ver essas pedras? A partir dessa demanda, surge também a iniciativa de fortalecer o catálogo online confiável da NSI, integrando materiais brasileiros de forma estruturada e alinhada ao Common Materials Framework. Essa integração posiciona a pedra natural brasileira dentro de um sistema reconhecido de fornecimento responsável e especificação correta.

Outro ponto de destaque foi o convite para que empresas brasileiras ampliem sua participação institucional por meio da Natural Stone Institute, utilizando a Centrorochas como ponte estratégica. A mensagem foi clara: quanto maior for a integração institucional, maior a capacidade de influenciar discussões técnicas, regulatórias e de mercado. O setor não pode assistir passivamente às mudanças, precisa ocupar os espaços onde as decisões são construídas.

Durante o painel, distribuidores norte-americanos compartilharam suas perspectivas sobre o cenário atual. A concentração inicial das ações na Califórnia já começa a se expandir para outros estados, como Kentucky, Massachusetts, Colorado, Texas e Nova York. Isso demonstra que o tema é sistêmico e exige resposta coordenada.

Também ficou evidente que, embora muitos distribuidores não sejam fabricantes, estão sendo incluídos como responsáveis nas ações. Os custos de defesa jurídica são substanciais e, em alguns casos, financeiramente desestabilizadores. Essa realidade reforça a necessidade de atuação conjunta entre entidades, indústria e distribuidores, criando um ambiente de cooperação, não de fragmentação.

A reunião resgatou ainda um histórico de colaboração entre NSI e Centrorochas em momentos anteriores, como discussões relacionadas a riscos associados ao gás radônio e questões tarifárias. Essa memória institucional reforça que a cooperação é canal legítimo e eficaz. O objetivo não é atribuir culpa, mas proteger a saúde de longo prazo do mercado de pedras nos Estados Unidos.

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Foto: Marmomac Brazil 2026

Proteção, neste contexto, significa práticas seguras, clareza técnica e ação coordenada. Significa também investir em dados científicos que sustentem diferenciações necessárias entre produtos manufaturados e naturais. Significa reforçar protocolos de fabricação adequados e comunicar essas práticas com transparência.

Dentro da Marmomac Brazil 2026, evento que projeta gerar cerca de um bilhão de dólares em negócios durante sua realização, essa reunião trouxe uma camada adicional de maturidade ao setor. Enquanto os estandes evidenciam design, inovação e potencial comercial, encontros como esse demonstram que o setor brasileiro está atento à dimensão institucional e regulatória do mercado global.

A defesa da pedra natural exige estratégia sustentada por ciência, presença institucional e uma narrativa técnica consistente, com o engajamento de exportadores, distribuidores, entidades e da comunidade científica. Ao apoiar pesquisas conduzidas com universidades de referência, ao integrar programas de educação continuada para arquitetos e ao fortalecer a presença brasileira nos canais oficiais da Natural Stone Institute, o Brasil demonstra que entende o jogo em sua complexidade. Competir internacionalmente não é apenas vender mais, é também proteger a reputação, garantir previsibilidade regulatória e construir confiança de longo prazo.

O que se viu nessa reunião foi exatamente isso: um setor que reconhece riscos, mas que opta por enfrentá-los com dados, cooperação e estratégia. Em um ambiente global cada vez mais sensível a temas de saúde ocupacional, responsabilidade e conformidade técnica, essa postura não é opcional, é mandatória. 

A Marmomac Brazil 2026 foi palco de lançamentos, negócios e conexões. Mas foi também cenário de um alinhamento estratégico que transcende o calendário da feira. A parceria entre NSI e Centrorochas sinaliza que o setor brasileiro não pretende apenas reagir a crises, pretende antecipar cenários, influenciar debates e consolidar seu posicionamento como fornecedor responsável e tecnicamente qualificado.

No fim, a verdadeira promoção da pedra natural brasileira nos Estados Unidos não está apenas na estética das chapas ou na diversidade geológica que impressiona arquitetos. Está na capacidade de sustentar, com ciência e institucionalidade, a legitimidade do material no mercado mais competitivo do mundo. E é exatamente nesse nível, estrutural e estratégico, que o setor decidiu atuar.

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