Por Flávia Santanna, para marbows
A arquitetura está em tudo. Na forma como as cidades crescem, nos espaços que organizam a vida cotidiana, nas decisões que moldam o que permanece. Mas, ainda assim, segue distante da percepção da maioria das pessoas.
É a partir desse descompasso que surge a Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB). O projeto ocupa o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, até o dia 30 de abril e se apresenta como um movimento que tenta reposicionar a arquitetura dentro da cultura. A proposta parte de uma leitura direta. Existe uma produção consistente no país, conectada ao território, mas que ainda circula em um ambiente restrito.
A Bienal tenta abrir esse campo, aproximando o público, ampliando repertório e reorganizando a forma como a arquitetura é comunicada.
A iniciativa é conduzida por Anna Rafaela Torino e Raphael Tristão, fundadores da plataforma Archa, em sociedade com Lucas Aragão e Felipe Zullino. Parte desse olhar também carrega a vivência capixaba dos idealizadores, um território diretamente conectado à produção de rochas naturais no Brasil. Essa origem não aparece como discurso explícito, mas atravessa a forma como matéria e território entram na conversa.

Lucas Aragão, Raphael Tristão, Anna Rafaela Torino e Felipe Zullino (Créditos: André Ligeiro)
Território, biomas e matéria
Dentro dessa estrutura, a Bienal organiza seu olhar a partir de território, biomas e modos de habitar o Brasil. Esse recorte desloca a discussão para um ponto menos abstrato. Falar de território leva, inevitavelmente, à matéria.
No contexto brasileiro, material não é escolha neutra. É leitura de lugar. As rochas naturais entram nessa discussão com um peso específico. Carregam tempo geológico, origem definida e uma relação direta com clima, cultura e técnica.
Um movimento que já aparece no setor
Esse ponto não surge isolado. Ele conversa com um movimento mais amplo que vem ganhando força no setor. Em feiras recentes como a Marmomac Brazil 2026, a presença da rocha natural deixou de ocupar apenas o espaço da indústria e passou a se posicionar com mais clareza dentro da arquitetura e do design.
Projetos expostos, instalações e curadorias passaram a tratar a pedra como linguagem, não como suporte. A discussão saiu do bloco e entrou no projeto. Saiu da extração e entrou na forma como a arquitetura constrói sentido a partir da matéria.

Trinta cubos fabricados com diversas rochas E Stones compõem a instalação de arte "Tectônicas em Exílio". Projeto desenvolvido pelo arquiteto Leonardo Zanatta (Divulgação: BAB).
A tentativa de reconexão
A Bienal se insere nesse momento. Existe uma tentativa de reconectar arquitetura, indústria e território. E isso passa por recolocar materiais brasileiros no centro da conversa.
As rochas naturais aparecem nesse cenário com uma vantagem concreta. Estão disponíveis no país, têm desempenho técnico consolidado e carregam uma presença estética que não depende de mediação para existir. Ainda assim, o uso nem sempre acompanha essa potência.
Do uso à decisão projetual
Esse deslocamento muda o tipo de debate. A discussão deixa de girar em torno da escolha superficial e passa a tratar de decisão projetual. Como usar, em que contexto, com qual leitura de território.
No Brasil, a matéria existe em abundância. O ponto está em como ela é interpretada dentro da arquitetura contemporânea.
Quando a matéria vira argumento
Ao trazer essa discussão para fora do circuito técnico e colocá-la em contato direto com o público, a Bienal amplia o campo. E, ao mesmo tempo, reforça um movimento que já começa a aparecer com mais clareza em feiras, projetos e discursos do setor.
A pedra deixa de ser detalhe. Passa a ocupar um lugar mais central na construção de uma arquitetura que olha para o território, entende sua origem e constrói a partir disso.
ENTREVISTA | Anna Rafaela Torino
01. A BAB nasce como um movimento. O que vocês perceberam no cenário da arquitetura brasileira para entender que esse projeto precisava acontecer agora?
A gente percebeu um descompasso: a arquitetura está em tudo, mas ainda não é percebida como parte da vida das pessoas. Existe uma produção extremamente potente no Brasil, criativa, diversa, conectada com o território, mas ela ainda circula pouco fora de um circuito mais fechado. A BAB nasce justamente para mudar isso. Para transformar arquitetura em cultura acessível, ampliar repertório e aproximar o público de algo que impacta diretamente a forma como a gente vive. Mais do que uma mostra, é um movimento para reposicionar a arquitetura como um tema cotidiano, e não técnico ou distante.
02. Quando vocês falam em ampliar o debate sobre arquitetura no Brasil, estão falando de acesso, de linguagem ou de poder cultural? Onde está a mudança mais urgente?
Os três, mas, se eu tivesse que escolher, diria que a mudança mais urgente está na linguagem. A arquitetura sempre teve um papel central, mas muitas vezes se comunica de forma pouco acessível. Quando a gente traduz isso, sem perder profundidade, o acesso acontece e, com ele, vem o poder cultural. Porque no fim, ampliar o debate é fazer com que mais pessoas entendam que arquitetura não é sobre o objeto isolado, mas sobre a vida, a cidade, as relações. E quando isso muda, muda também a forma como a sociedade demanda, consome e valoriza a disciplina.
03. Ao olhar para território, biomas e modos de habitar o Brasil, fica impossível ignorar a matéria. Como as rochas naturais entram nessa leitura da arquitetura brasileira?
A matéria, no Brasil, não é só técnica é narrativa. Quando a gente fala de biomas e modos de habitar, a escolha dos materiais passa a ser uma leitura direta do território. As rochas naturais entram como um elemento potente dessa conversa, porque carregam tempo, geografia e identidade. Elas não são neutras. Elas contam histórias do lugar de onde vêm, das técnicas que permitem seu uso, e da forma como dialogam com clima, cultura e permanência.
04. A Bienal também pode ajudar a recolocar materiais brasileiros no centro da conversa arquitetônica? Nesse contexto, que espaço as rochas naturais podem ocupar?
Com certeza e esse é um dos papéis mais importantes da BAB. A gente quer reconectar arquitetura, indústria e território. E isso passa diretamente por valorizar materiais brasileiros, não só como insumo, mas como parte da linguagem do projeto. As rochas naturais têm um espaço muito relevante nisso porque unem três coisas fundamentais: disponibilidade local, qualidade técnica e potência estética. O que a gente busca provocar é uma mudança de olhar,!sair de uma lógica de escolha puramente estética ou de tendência, para uma escolha mais consciente, que considera origem, impacto e significado.
05. Que tipo de debate vocês gostariam de provocar sobre o uso de materiais naturais na arquitetura brasileira daqui para frente?
A gente quer provocar um debate mais profundo: menos sobre “usar ou não usar” e mais sobre como usar. Como usar com responsabilidade, com inteligência técnica, com consciência ambiental e, principalmente, com conexão cultural. O Brasil tem uma riqueza material enorme. O desafio não é acesso, é interpretação. Então o debate que nos interessa é: como transformar essa abundância em arquitetura relevante, contemporânea e, ao mesmo tempo, profundamente brasileira.
Serviço
A programação da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) reúne exposições, instalações e conteúdos que ampliam o debate sobre arquitetura no Brasil, aproximando o tema do público e conectando projeto, território e matéria.
Bienal de Arquitetura Brasileira 2026
Quando: 25 de março a 30 de abril de 2026
Horário: 12h às 21h
Onde: Parque Ibirapuera, São Paulo - Pavilhão das Culturas Brasileiras
Site oficial: www.bienaldearquiteturabrasileira.com






