“O Ceará se posicionou antes mesmo de ser observado pelo mercado” afirma Carlos Rubens, do Simagran

Por Flávia, para marbows

Sempre que um setor ganha visibilidade, surge a tentação de chamar aquilo de “ponto de virada” e seguir em frente. No caso do Ceará, essa leitura é curta demais. 2025 não inaugura uma história, ele apenas tornou impossível ignorar um trabalho que vem sendo feito há décadas.

Na conversa com Carlos Rubens Alencar, a análise é clara: os números recentes não são fruto de sorte nem de um desvio estatístico. Eles são consequência de uma estratégia construída com tempo, método e disciplina técnica. Há muito “ponto de virada” que parece novidade, mas é apenas o mercado percebendo, tarde, algo que já estava em curso.

Carlos Rubens, geólogo, presidente do Simagran, CEO da HEAD PAR e coordenador da CEE 187 na ABNT, relembra que esse processo começou ainda no início dos anos 1980, quando o Ceará passou a tratar a rocha natural como ativo estratégico, e não como um acaso geológico.

Foi ali que surgiram os primeiros estudos de mercado, a pesquisa sistemática de áreas e, depois, um trabalho contínuo de divulgação do potencial do estado. O efeito foi direto: atração de investidores, abertura de pedreiras e a criação de um ciclo consistente de descoberta e posicionamento.

No fim dos anos 1980, um material ajudou a colocar o Ceará no radar de quem especifica e compra com critério: o granito Branco Ceará. Para Carlos, ele está entre os granitos brasileiros mais relevantes das últimas quatro décadas. A partir dali, o portfólio cresceu, a pesquisa avançou e novos materiais entraram em cena, dos limestones aos granitos super exóticos, até a chegada dos primeiros quartzitos, já nos anos 2000.

Hoje, o estado fala com o mercado internacional por meio de um nome que virou referência: o Taj Mahal. Segundo Carlos, ele lidera um grupo de quartzitos que está entre os mais desejados do mundo. Quando o assunto é quartzito de alto padrão, o Ceará não pede espaço. Ele já ocupa.

Por que o quartzito ganhou protagonismo nas exportações

O avanço do quartzito em 2025 não se explica apenas por estética ou tendência. Para Carlos, a base dessa liderança está na consistência técnica. Ao longo de décadas, o Ceará manteve uma preocupação constante em trabalhar com materiais que atendessem requisitos normativos claros, mesmo quando isso significava avançar com menos empresas.

Foi esse cuidado que empurrou os quartzitos cearenses para frente. Eles ganharam espaço justamente quando materiais semelhantes, de outros polos produtores, perderam terreno por não atenderem às exigências de clientes e consumidores finais.

Em resumo: não basta vender uma rocha bonita. É preciso entregar um material que sustente, na prática, o que promete.

Simagran: protagonismo onde falta estrutura pública

Quando o tema é organização setorial, Carlos é direto e desconfortável. Para ele, hoje não há um posicionamento claro do Estado em relação à mineração no Ceará. Nesse vazio, o Simagran acabou assumindo um papel que vai muito além do protocolo sindical.

O sindicato atua na formulação e na construção de bases estruturais para valorização da pedra natural. Um exemplo foi a criação da Fortaleza Brazil Stone Fair, em 2015, um dos primeiros eventos do mundo com foco direto em arquitetura, design e decoração.

Outro marco foi o primeiro MBA do mundo voltado à Gestão de Rochas nas Obras Civis, que formou profissionais preparados para dialogar com especificação e mercado. Soma-se a isso a articulação que contribuiu para a criação de uma entidade nacional representativa do setor, hoje o Centrorochas.

Há ainda o estímulo à organização das marmorarias, com a criação da Rede Rochas, um grupo dentro do Simagran que atua com programação anual, participação em feiras, capacitação, benchmarking e iniciativas até então inéditas no país.

O gargalo invisível que pode travar o crescimento

Apesar do avanço produtivo e da maior visibilidade internacional, Carlos aponta um entrave que não aparece em catálogos nem em fotos de chapas: a fragilidade institucional.

Segundo ele, a ausência de presença do setor dentro da estrutura do Estado cria um ambiente de confronto, especialmente no âmbito municipal. Há casos de prefeituras negando anuências a empresas legalizadas, com licenciamento ambiental e autorização da ANM, impedindo operações e travando geração de renda.

O que sustenta competitividade no longo prazo

Carlos mantém uma visão otimista, mas ancorada na realidade da lavra e da indústria. Para ele, os investimentos em pesquisa e ampliação de áreas produtivas devem continuar crescendo. Além disso, o estado entra em uma nova fase, com a implantação de novas indústrias.

Ainda este ano, ele projeta pelo menos duas novas unidades de beneficiamento em operação, além de outros projetos em desenvolvimento. Esse movimento ajuda a explicar a maturidade do Ceará no cenário global: desde os anos 1980, o Simagran está integrado às principais redes institucionais internacionais do setor.

No fim, o que o Ceará vem fazendo é raro e consistente. Construir reputação com base em pesquisa, norma, organização e indústria. 2025 chamou atenção, mas a história vem sendo escrita há mais de 40 anos.

Um recado direto para o Espírito Santo

A entrevista deixa uma mensagem clara para outros polos produtores, especialmente o Espírito Santo. Liderança não é herança. É disciplina acumulada. O Ceará não “explodiu” por acaso. Ele colheu décadas de pesquisa, construção de portfólio e divulgação inteligente do seu potencial geológico até se tornar referência com materiais desejados globalmente.

A segunda lição é ainda mais estratégica: norma e caracterização tecnológica não são burocracia, são ferramenta comercial. Quem domina especificação, domina margem. Quem ignora requisito vira commodity. E commodity disputa preço, não valor.

Por fim, Carlos deixa claro que posicionamento setorial nasce do ecossistema, não da promessa de governo. O maior risco, muitas vezes, é institucional. Para o Espírito Santo, isso significa fortalecer coordenação setorial, defender previsibilidade regulatória e acelerar valor agregado com indústria, beneficiamento, qualificação e presença ativa em redes.

Entrevista | Carlos Rubens

  1. Os dados mais recentes mostram que 2025 marca um ponto de virada para o setor de rochas no Ceará. Na sua visão, o que mudou na prática para que o estado passasse a ser observado com mais atenção pelo mercado?

Os dados de 2025, não aconteceram por acaso, eles são resultantes de trabalhos que foram iniciados no início dos anos 80, onde foi realizado estudos de mercado do setor de rochas ornamentais, criado um programa de pesquisa de áreas para detalhamento e posteriormente, um programa de divulgação do potencial do Estado, que resultou na atração dos primeiros investidores e que geraram as primeiras pedreiras. No final dos anos 80, foi descoberto o granito Branco Ceará, que é certamente um dos principais e melhores granito brasileiro dos últimos 40 anos. As pesquisas continuaram, surgiram ós Limestones, diversos granitos superexóticos e no início dos anos 2000, foram descobertos os primeiros quartzitos e atualmente o Ceará, liderado pelo Taj Mahal, detém aqueles que são os quartzitos mais desejados em todo o mundo.

2. Os dados mais recentes apontam que o quartzito foi a rocha natural mais exportada pelo Ceará em 2025. O que explica esse protagonismo do material na pauta exportadora do estado?

O Estado do Ceará, tem sido um protagonista muito importante do setor nestes últimos 40 anos e a preocupação que está bem disseminada de buscar rochas que preencham os requisitos de normas sempre foi uma prioridade das nossas poucas empresas. Diante deste aspecto, os nossos Quartzitos tem avançado sobretudo pela sua caracterização tecnológica e passaram ocupar um espaço maior, a partir do momento que produtos similares de outros centros produtores, perderam espaço por não atenderem os requisitos pretendidos pelos clientes consumidores finais.

3. Qual tem sido o papel do Simagran nesse novo momento de organização e posicionamento do estado?

A sua pergunta é muito interessante. Na realidade, o Estado não tem nenhum posicionamento. O Simagran trabalha na “animação” e é o único protagonista do setor, pois não há nenhuma estrutura de governo no Ceará, atuando na mineração. Os trabalhos principais do Simagran, são no campo da formulação e temos procurado atuar em ações estruturantes e que buscam a valorização da pedra natural. Criamos a Fortaleza Brazil Stone Fair em 2015, que foi um dos primeiros eventos do mundo focado nos profissionais de arquitetura, design e decoração. Realizamos o 1.MBA do mundo, sobre Gestão de Rochas nas Obras Civis, que formou 15 profissionais. Iniciamos a articulação que possibilitou termos uma entidade nacional legítima e com representatividade, que é atualmente o Centrorochas. Estimulamos a organização do segmento de marmorarias e hoje temos a REDE ROCHAS, que é um grupo organizado dentro do Simagran e que tem um programa anual de atuação, que inclui participação nas feiras nacionais, cursos de capacitação, ações de benchmarking e que são inéditos nacionalmente.

4. Mesmo com avanços claros em produção e visibilidade, quais gargalos ainda precisam ser enfrentados para sustentar esse crescimento no médio e longo prazo?

O nosso grande gargalo é não termos uma presença institucional dentro da máquina do Estado. Esta situação, nos coloca numa posição de “confronto” pois é como se fossemos coisas antagônicas e isso vem acontecendo sobretudo nas relações municipais, onde temos tido problemas graves em várias regiões, inclusive com prefeituras negando anuências para empresas legalmente instrumentalizadas na ANM e com licenciamento ambiental, sendo impedidas de atuar e inclusive prejudicando a geração de renda e causando uma enorme insegurança jurídica.

5. O desafio agora é sustentar essa curva positiva. Quais frentes precisam ser priorizadas para que o Ceará transforme o bom desempenho atual em competitividade de longo prazo no mercado global de rochas naturais?

O crescimento da atividade vai continuar, pois os investimentos em pesquisas e ampliações das lavras serão crescentes. Adicionalmente está começando a implantação de novas indústrias. Este ano deveremos ter pelo menos duas novas unidades de beneficiamento entrando em operação e existem pelo menos mais 03 novos projetos em fase de elaboração. Gostaria ainda de enfatizar que o Simagran é integrado desde meados dos anos 80, as redes institucionais mundiais dos grandes agentes de desenvolvimento do setor.

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