Por Flávia, para marbows
Há arquitetos que usam a pedra natural, e há aqueles que pensam com ela. No trabalho de Jeferson Branco, a rocha não entra como um luxo silencioso e nem como um detalhe nobre de catálogo. Ela entra carregada de intenção, personalidade e linguagem.
Em entrevista à Marbows, Jeferson cita que essa relação nasceu do contato direto, quase físico, com o material. Foi no momento em que Jeferson começou a desenhar com mais consciência autoral que a pedra deixou de ser revestimento e passou a ser discurso. Um elemento capaz de sustentar conceito, narrativa e identidade.“Ela carrega tempo, peso, origem, território”, explica.
Pedra não imita a natureza. Ela é.
A conexão com a natureza atravessa todo o processo criativo do arquiteto, mas não de forma óbvia ou decorativa. A pedra natural interessa justamente porque não é dócil. Exige leitura, escuta, respeito e não tenta parecer orgânica, ela é. Quando colocada em contato com luz, vidro, aço ou tecnologia, cria tensão. E é nesse atrito que o trabalho de Jeferson se sustenta: o ancestral convivendo com o contemporâneo, o orgânico em confronto com o construído.

Foto: Jeferson Branco
Um país rico em pedra, mas ainda pobre em repertório
Apesar do Brasil ser um dos países mais ricos do mundo em rochas naturais, Jeferson aponta uma lacuna clara entre arquitetos, designers e o uso consciente desse material. As barreiras são três e nenhuma é simples.
A primeira é cultural: a pedra ainda carrega o peso de questões pouco questionados, associada ao luxo óbvio ou ao excesso. A segunda é técnica: falta proximidade real com o material, com as pedreiras, com quem extrai, corta e trabalha a rocha. E a terceira é: nas escolas e universidades, a pedra natural é raramente apresentada como linguagem contemporânea. Jeferson cita que falta tratar a rocha como matéria viva de projeto e não como catálogo.
Menos reprodução, mais leitura crítica
Para o futuro do design brasileiro, a resposta não está em usar mais pedra natural, mas em explorar questões não óbvias, como: aceitar imperfeições, conhecer a origem, nome, geologia e principalmente trabalhar o reaproveitamento. Pensar sustentabilidade para além do discurso raso, olhando para durabilidade, ciclo de vida e uso consciente.
Quando arquitetos e designers passam a enxergar a pedra como matéria narrativa, e não como símbolo de status, ela se alinha naturalmente ao nosso tempo e à nossa identidade.
Entrevista | Jeferson Branco, arquiteto e designer
Seu trabalho é marcado por uma linguagem autoral e pela valorização da matéria-prima. Em que momento nasceu a sua relação com o uso da pedra natural em seus projetos?
Quando comecei a desenhar com mais consciência autoral, percebi que a pedra não era só um revestimento nobre, mas uma linguagem possível. Um material capaz de sustentar conceito, narrativa e identidade. A partir daí, ela deixou de ser escolha estética e passou a ser discurso.
Minha relação com a pedra nasce antes do projeto, nasce do contato físico. Do momento em que você entende que aquele material não é neutro, que ele carrega tempo, peso, origem, território.
A conexão com a natureza é um tema presente no seu processo criativo. De que forma a pedra natural dialoga com essa sensibilidade e com o estilo que você constrói nos seus projetos?
A pedra me interessa justamente por não ser um material “dócil”. Ela exige leitura, escuta e respeito. Dialoga com a natureza porque não tenta imitá-la, ela é natureza. Ao mesmo tempo, quando entra no projeto, cria um contraste potente com tecnologia, luz, aço, vidro. Esse atrito é muito presente no meu trabalho: o orgânico em tensão com o construído, o ancestral convivendo com o contemporâneo. A pedra funciona como âncora. Ela traz gravidade, silêncio e permanência para ambientes que poderiam facilmente se tornar efêmeros.
Em que momento do seu processo a pedra natural costuma entrar? Como ponto de partida, elemento estruturante ou acabamento? O que orienta essa escolha?
Depende do projeto, mas quase nunca entra apenas como acabamento. Na maioria das vezes, ela aparece como estrutura conceitual. Às vezes como ponto de partida, outras como elemento que organiza o espaço, cria hierarquia ou define percurso. A escolha vem do que aquele projeto precisa comunicar. Se a ideia pede densidade, tempo, memória ou contraste, a pedra costuma aparecer cedo no processo. Quando ela entra tarde, normalmente é porque o espaço já pediu por ela.
Mesmo o Brasil sendo um país riquíssimo em rochas naturais, ainda existe uma lacuna de conhecimento entre arquitetos e designers sobre o uso desse material. Na sua visão, onde estão hoje as principais dores e barreiras?
Vejo três grandes barreiras. A primeira é cultural: a pedra ainda é muito associada ao luxo óbvio, ao excesso ou a repertórios pouco questionados. A segunda é técnica: falta proximidade real com o material, com as pedreiras, com quem extrai, corta e trabalha a rocha. E a terceira é formativa: a pedra raramente é apresentada na formação como linguagem contemporânea. Falta experimentação, erro, teste. Falta tratar a pedra como matéria viva de projeto, e não como catálogo.
Olhando para o futuro do design brasileiro, como arquitetos e designers podem usar a pedra natural de forma mais autoral, consciente e alinhada ao nosso tempo?
O futuro passa por menos reprodução e mais leitura crítica. Usar pedra não é sobre usar mais, mas usar melhor. Explorar paginações não óbvias, aceitar imperfeições, trabalhar reaproveitamento, entender origem, nome, geologia. É também pensar sustentabilidade de forma menos superficial, olhando para durabilidade, ciclo de vida e uso consciente. Quando arquitetos e designers passam a enxergar a pedra como matéria narrativa, e não como símbolo de status, ela se alinha naturalmente ao nosso tempo e à identidade brasileira.
No dia 25 de fevereiro, Jeferson Branco leva esse pensamento à Arena de Conteúdo da Marmomac Brazil 2026. Na palestra ele propõem uma reflexão que vai além da tendência: um olhar sobre permanência, território e intenção no design contemporâneo.






