Contribuição do Fábio Cruz e Centrorochas
Nos últimos anos, o debate global sobre minerais críticos ganhou protagonismo. Governos passaram a enxergar determinadas matérias-primas não apenas como commodities, mas como ativos estratégicos para a segurança econômica e industrial. Lítio, terras raras, níquel e cobre tornaram-se centrais nas discussões sobre transição energética, tecnologia e geopolítica.
Mas há uma pergunta pouco explorada nesse cenário: afinal, minerais críticos para quem?
Grande parte das listas internacionais prioriza recursos metálicos ligados à indústria tecnológica. No entanto, cada país possui estruturas produtivas próprias e, com elas, demandas estratégicas distintas. Em muitos casos, isso inclui também minerais não metálicos, fundamentais para setores estruturantes da economia.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a construção residencial é um dos pilares econômicos. A edificação e a renovação de moradias movimentam uma cadeia ampla, geram milhões de empregos e influenciam diretamente os ciclos econômicos. Nesse contexto, materiais utilizados em pisos, revestimentos e superfícies assumem papel essencial na infraestrutura urbana. É aí que entram as rochas naturais.
Embora raramente incluídas no debate tradicional sobre minerais estratégicos, essas matérias-primas sustentam uma parcela relevante da cadeia da construção. E é justamente nesse ponto que o Brasil se destaca.
O setor brasileiro de rochas naturais movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano, com divisão equilibrada entre mercado interno e exportações. O Espírito Santo concentra aproximadamente 80% do processamento de blocos em chapas, mas a atividade mineradora se espalha por diversas regiões, gerando emprego e renda, muitas vezes em áreas distantes dos grandes centros.

No mercado internacional, o protagonismo brasileiro é evidente. Aproximadamente 85% da pedra natural consumida nos Estados Unidos é importada e o Brasil ocupa hoje a posição de principal fornecedor.Essa liderança se explica por fatores estruturais. Os Estados Unidos não possuem produção doméstica suficiente para atender à demanda, e boa parte das rochas disponíveis é historicamente direcionada a obras públicas e monumentos. Já os materiais brasileiros ganharam espaço em projetos residenciais, especialmente de médio e alto padrão.
Granitos, mármores e quartzitos brasileiros estão presentes em bancadas, revestimentos e superfícies em residências americanas, tanto em reformas quanto em novas construções.
Outro ponto relevante é a organização da cadeia produtiva. Grande parte das exportações brasileiras chega aos Estados Unidos como produto semiacabado, que será finalizado pela indústria local. Trata-se de uma cadeia integrada, em que o processamento inicial ocorre no Brasil, enquanto as etapas finais, corte, acabamento e instalação, geram valor, empregos e atividade econômica no território americano.
Em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimento, essa complementaridade ganha relevância estratégica. Nos últimos anos, políticas públicas e documentos de segurança econômica dos Estados Unidos passaram a enfatizar a importância de cadeias resilientes e de parcerias confiáveis, especialmente dentro do Hemisfério Ocidental.
A geologia também ajuda a explicar o papel do Brasil. Se países como Itália e Grécia são reconhecidos por seus mármores, e a Índia por seus granitos, o Brasil reúne uma diversidade singular: granitos, mármores, quartzitos, ardósia, pedra-sabão e até pedras semipreciosas compõem um patrimônio mineral altamente variado.
Não por acaso, o País é considerado um dos territórios de maior geodiversidade do mundo e lidera a produção global de quartzito, material cada vez mais valorizado em projetos de arquitetura e design. Há ainda um fator adicional: sustentabilidade. Em comparação com materiais industrializados, a pedra natural demanda menor transformação e apresenta um ciclo de vida extremamente longo. Em muitos casos, trata-se de um material capaz de atravessar décadas, ou mesmo séculos, em uso.
Nos últimos meses, representantes do setor brasileiro têm intensificado o diálogo com instituições norte-americanas, incluindo congressistas, associações empresariais e think tanks. O objetivo é ampliar a compreensão sobre o papel das rochas naturais na cadeia da construção e fortalecer uma relação comercial já consolidada.
Esse tema começa, inclusive, a ganhar espaço em fóruns mais amplos sobre minerais críticos e cadeias estratégicas. Não porque as rochas naturais substituam minerais utilizados em tecnologias avançadas, mas porque integram algo igualmente essencial: a base física que sustenta o crescimento das cidades.
Talvez seja o momento de ampliar a própria definição de mineral crítico. Além daqueles que viabilizam baterias, semicondutores e turbinas, existem também os que constroem lares, estruturam cidades e sustentam comunidades. E nesse campo, o Brasil reúne atributos raros: abundância de recursos, diversidade geológica, capacidade industrial e uma cadeia produtiva pronta para avançar.
Com planejamento e coordenação estratégica, o setor projeta alcançar US$ 3 bilhões em exportações até 2030, aprofundando ainda mais a integração produtiva entre Brasil e Estados Unidos. Ampliar o conceito de mineral crítico talvez não seja apenas uma questão semântica, mas um passo necessário para compreender, de forma mais completa, o que sustenta o desenvolvimento das economias.
(*) Fábio Cruz é empresário do setor de rochas naturais e vice-presidente da Centrorochas (Associação Brasileira de Rochas Naturais).






